Exposição coletiva “banho de paragem” – Colletif – Lisboa
Uma estrutura totêmica tem a capacidade de criar um buraco no tempo por onde atravessam os impulsos mais primitivos. São estes impulsos que irão banhar esta mesma estrutura de um poder mitológico que poderá seguir o percurso natural do mito e se tornar um tabu. Os espelhos estão impregnados com estórias, interditos e mitos. A sua popularização foi uma revolução na forma como o ser humano se enxerga e de como percebe o mundo ao seu redor.
Esse mesmo desequilíbrio ocasionado pelos espelhos se repetiu séculos mais tarde quando uma imagem passou a ser “fielmente” gravada em um suporte. O ato de se ver fora do próprio corpo passou a ser ainda mais comum com o desenvolvimento da fotografia. Surge uma nova forma de se espelhar, um modo menos efêmero de se encontrar consigo mesmo. O próprio discurso passa a se utilizar com ainda mais veemência das figuras de representação simbólica do reflexo, do espelho, da especulação.
Neste trabalho, o totem se assume como peça quase escultórica, o espelho se desfaz com o acender da luz interna da peça e o espectador deixa de ser imagem refletida e se torna receptor de uma série com dez frases que sintetizam o poder da imagem especular-fotográfica. Com o novo apagar das luzes, o espectador volta a ser imagem participante da obra com sua figura carimbada na superfície ativa do espelho. A cada novo ciclo se dá esse mistério inerente e imanente à própria natureza do espelho: só o próprio indivíduo pode ver a superfície “ativada”.

totem aceso
totem apagado




Exposição coletiva “banho de paragem” – Colletif – Lisboa, 2024
1. O nada é o nitrato de prata que faz do homem o que ele é: espelho; (Vilém Flusser – Do espelho)
2. Desde aí, comecei a procurar-me – ao eu por detrás de mim – à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio; (João Guimarães Rosa – O espelho)
3. Espelho é o espaço mais fundo que existe; (Clarice Lispector – Água Viva)
4. Tire-se a sua moldura ou a linha de seu recortado, e ele cresce assim como água se derrama; (Clarice Lispector – Água Viva)
5. Espelho congelante é a fotografia; (Umberto Eco – Sobre os espelhos e outros ensaios)
6. O grande espelho calmo, no fundo do qual as coisas se mirariam e remeteriam umas às outras suas imagens, é, na realidade, todo buliçoso de palavras. Os reflexos mudos são duplicados por palavras que os indicam; (Michel Foucault – As palavras e as coisas)
7. Pois espelho em que eu me veja já sou eu, só espelho vazio é que é o espelho vivo; (Clarice Lispector – Água viva)
8. O homem que todos os dias se confronta com a natureza não se interessa por reflexos impalpáveis, nem está muito ansioso, por encontrar o seu rosto marcado, tisnado, gasto pelo trabalho; (Sabine Melchior-Bonnet – História do Espelho)
9. A sua forma não importa: nenhuma forma consegue circunscrevê-lo e alterá-lo. Espelho é luz. Um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo; (Clarice Lispector – Água viva)
10. Logo o espelho começou a derramar sobre ela uma luz que pareceu fixá-la; que parecia uma espécie de ácido a carcomer o que era dispensável e superficial, poupando apenas o que era verdadeiro; (Virginia Woolf – A mulher no Espelho: uma reflexão)