Texto de apresentação do livro de fotografia “Queens, Kings & Queers” de Inês Ventura lançado no dia 01 de junho de 2025
montar, desmontar: remontar
O cantar do galo, pássaro que anuncia a alvorada, faz o fantasma do rei da Dinamarca se desfazer em cena e voltar ao seu túmulo, mudo. O espectro do falecido rei Hamlet paira sobre a peça, e causa um misto de insanidade, loucura e performance que guia o príncipe em seus monólogos. É um prelúdio dos rearranjos políticos que aconteceriam nos séculos seguintes. A monarquia, depois de ser responsável pela massiva expansão da indústria colonial e pela exploração de diversos povos, vai se tornando espectro. Não sem antes racializar corpos, estigmatizar identidades e criar dualidades sociais tão bem desenhadas quanto as são “reis e rainhas”.
Totus mundus agit histrionem. Todo mundo representa. Este foi o lema do Globe Theatre criado por Shakespeare há mais de quatrocentos anos. O teatro Elisabetano, com seu palco situado no meio do público e a ausência de cortinas, funcionou como um espelho daquele mundo: atores que representavam conquistas, tragédias, ascensão e declínio de uma sociedade já sintomática. Na “era dourada” da história inglesa, conhecida pelo nome de sua rainha, entravam em cena apenas os homens. Totus mundus agit histrionem – mas nos palcos só subiam alguns.
Os regimes políticos e sistemas econômicos que ocupam o lugar da monarquia foram capazes de manter, criar e potencializar hierarquias. No capitalismo, por exemplo, as demarcações de alguns significantes sociais se tornam ainda mais intensas: Homem, mulher. Branco, preto. Heterossexual, homossexual. Dentro, fora. Cis, trans. Digital, analógico. Rico, pobre. Norte, sul. Nacional, estrangeiro. Ocidente, oriente. É na fricção entre os pares que o sistema retira a sua força e sua capacidade de acúmulo. O que lubrifica estas interações são os movimentos que paradoxalmente surgem destes mesmos atritos. Revoluções sociais queer, trans, feministas, transfeministas, decoloniais, antirracistas, e tantas outras lutam para que suas identidades deixem de ser limitantes, ou postas em oposição às classes dominantes que orgulhosamente dizem não pertencer a grupos identitários. Em um mundo organizado pelo espetáculo e pelo desempenho, ou assume-se que todos performam identidades ou não há performance.
O filme “Le Duel d’Hamlet” (1900), com apenas dois minutos de duração, mescla o teatro e o cinema em uma performance híbrida, sendo um dos primeiros em que os atores dublaram sua própria voz previamente gravadas. Ele transformou a história das artes, do cinema, da atuação e da própria performance de gênero quando Sarah Bernhardt assume o papel principal e interpreta o príncipe Hamlet. A atriz, pioneira na interpretação de papeis masculinos, foi uma das únicas a representar tanto Hamlet quanto Ophelia.
Para além do reino da Dinamarca e de tantas outras dinastias que ainda pairam como fantasmas, os sujeitos continuam a tomar o poder político de decidir sobre seus próprios corpos, sua performance e sua identidade. Invocam-se palavras monárquicas para esvaziá-las de qualquer conotação de fabricação de corpos e exploração de povos. Tomam-se as produções artísticas e culturais que são frutos da história humana e transformam-nas em armas poéticas e objetos de luta, prazer e contemplação. O galo canta e a alvorada anuncia um novo palco em construção. Um palco onde todos os corpos representam. Este livro é o resultado morfológico de uma monarquia dismórfica que se reproduziu: Queens, Kings & Queers. Corpos que transitam entre representações e se utilizam da arte, da atuação e da performance para questionar a estilização do próprio ato performativo cotidiano. Os movimentos drag ironizam a hierarquia social e mostram que gênero não é algo que se usa, não é produto de consumo, mas palco de luta e poesia. Uma contracultura que não cede a pressões e que se monta e desmonta ininterruptamente.
Montagem:
(mon·ta·gem)
substantivo feminino
1. Ato de montar.
2. Processo de juntar ou armar peças de máquinas, equipamentos ou dispositivos.
3. [cinema] Atividade que consiste em fazer sequências com uma seleção de cenas filmadas, para resultar num filme.
Em drag, diferente de um processo industrial, não se é montado: monta-se. Deixa-se de ser passivo e passa-se a agente principal e fundamental no processo de montagem – de si e do que representa. Escolhe-se as peças, equipamentos e dispositivos que lhe cabem. Esconder sobrancelhas e delinear bigodes. Colar pelos. Colocar cabelos, encaracolar cabelos, cortar cabelos, alisar cabelos. Iluminar as bochechas, desenhar maxilares. Vestir calças largas, vestidos apertados, brincos, pulseiras. Enquanto drag queens, kings & queers se vestem, Inês também se monta enquanto artista. Através de escolhas que vão para além do enquadramento, velocidade, cor e estética, o livro também é montado por uma própria máquina de ideias, princípios, visões, concepções e conceitos. As câmeras deslizam entre os espaços e Inês joga contra a própria caixa-preta. Sem uma velocidade determinada, em um instante incerto, com cores indefinidas, sem cortinas: a captação é ininterrupta, o livro infinito. O tempo aqui é outro.
É por um ambiente escorregadio de um sonho quase profético que Inês nos coloca dentro das performances das Queens. Pontos luminosos de cortinas florais transportam o espectador por túneis de memórias cavados pela própria mão que folheia o livro. É preciso se colocar enquanto corpo para que este objeto funcione. As imagens, às vezes lúbricas, são fixadas por luz, contraste, textura e cor. A câmera avança em pormenores e dança junto destes corpos quase universais. Mãos, braços, peitos, pernas, barriga, pele, carne. Uma coisa biológica que se desdobra em um contexto social. O corpo é político. Um livro também pode ser. Nas suas fotografias mais cruas, Inês dá nome a estes corpos e abandona o digital para nos apresentar rostos. É através destas imagens que temos contato com aquilo que representa grande parte do trabalho das drag queens: as sobrancelhas recém desenhadas, as pestanas longas, os olhos grandes e a boca muito bem delimitada para ser emprestada às vozes que serão dobradas. Na performance de lip sync, a dança dos lábios se desdobra em uma imitação da estrutura de gênero que “revela o próprio gênero como uma imitação”.
Em Kings & Queers a disforia monárquica ganha uma nova poesia. O rei vem ligado ao queer, palavra que tem na sua própria ontologia a recusa em ser descrita, explicada, classificada. Palavra incorporada pela renúncia da sua própria descrição. O trono é usurpado. Os pés assentes no chão tomam a terra para si. Corpos regicidas. Fotografias firmes, sólidas. O mistério ganha tons mais marcados e se dá através de chiaroscuros decisivos. Há uma delimitação entre aquilo que se vê e aquilo que nos olha. Inês toma em suas mãos um discurso quase documental, e se utiliza dos tons que estão na origem do fazer fotográfico. Preto e branco ocupam um lugar sólido dentro da fotografia porque separa este objeto da concepção de realidade. Dentro do monocromático, Inês coloca todas as cores, e assim desafia a normalidade do real, inverte a lógica da catalogação de corpos como documento e abandona pressupostos do gênero-fotográfico. O estranhamento e o deslocamento da realidade aparecem como metáforas de uma natureza quase palpável. As fotografias crescem, sangram, escorrem e transbordam pelo próprio livro.
O que Inês monta é um documento social. Uma análise de um discurso artístico e poético que faz sobretudo o trabalho de pensar a política na arte. A fotografia aqui se liga a sua própria ontologia, carrega um conteúdo que há muito esteve latente, detalhes de uma realidade oculta, segregados em ambientes de contracultura, e que passam a ser revelados. Imagens dissidentes, de uma natureza escorregadia, deslizam a partir das fricções e atritos causados pelas dualidades impostas pelo sistema social e econômico. Na vida, no show, na performance cultural, é-se um corpo no mundo. Corpos que podem emigrar e imigrar: de cidade, país, continente, gêneros, ou grupos. Que podem construir novas realidades ou desestruturar verdades antigas. E o que estes corpos carregam consigo é sempre uma soma de tudo aquilo que já passou. Sem deixar de ser uma coisa para se tornar outra. É-se tudo. Ao mesmo tempo, o tempo todo. Como diz Paul B. Preciado: “prefiro minha nova condição de monstro à de homem ou mulher, porque essa condição é como um pé que avança no vazio, apontando o caminho para outro mundo”. Não há como ter certeza quanto a esse caminho, mas é possível avançar ao encontro de um espaço mais monstruoso. Um mundo-palco em que todos podem atuar, performar, dublar, cantar, dançar e criar sua própria forma de expressão. Por isso este objeto. Por isso este livro. Tudo junto, em um mesmo lugar. Aparelho circular que requer um manusear para além de o folhear. Um querer descobrir, interpretar, montar e desmontar. Ele mesmo um corpo vivo, uma reconstrução, uma soma, um monstro.
EN
assemble, disassemble: reassemble
The crowing of the cock, the bird that announces the dawn, causes the ghost of the King of Denmark to fall apart on stage and return to his grave, mute. The spectre of the late King Hamlet hovers over the play, causing a mixture of insanity, madness and performance that guides the prince in his monologues. It is a prelude to the political rearrangements that would take place in the following centuries. The monarchy, after being responsible for the massive expansion of the colonial industry and the exploitation of various peoples, becomes a spectrum. Not before racialising bodies, stigmatising identities and creating social dualities as well designed as those of ‘kings and queens’.
Totus mundus agit histrionem. All the world plays the actor. This was the motto of the Globe Theatre created by Shakespeare over four hundred years ago. The Elizabethan theatre, with its stage situated in the middle of the audience and the absence of curtains, functioned as a mirror of that world: actors representing conquests, tragedies, the rise and decline of an already symptomatic society. In the ‘golden age’ of English history, known by the name of its queen, only men entered the stage. Totus mundus agit histrionem – but only a few went on stage.
The political regimes and economic systems that have taken the place of the monarchy have been able to maintain, create and enhance hierarchies. In capitalism, for example, the demarcation of certain social signifiers becomes even more intense: Man, woman. White, black. Heterosexual, homosexual. Inside, outside. Cis, trans. Digital, analogue. Rich, poor. North, south. National, foreign. West, east. It is in the friction between pairs that the system draws its strength and its capacity for accumulation. What lubricates these interactions are the movements that paradoxically arise from these very frictions. Queer, trans, feminist, transfeminist, decolonial, anti-racist and so many other social revolutions are fighting for their identities to stop being limiting, or placed in opposition to the dominant classes who proudly claim not to belong to identity groups. In a world organised by spectacle and performance, it is either assumed that everyone performs identities or there is no performance.
The film “Le Duel d’Hamlet” (1900), just two minutes long, mixes theatre and cinema in a hybrid performance, being one of the first in which the actors dubbed their own previously recorded voices. It transformed the history of the arts, cinema, acting and gender performance itself when Sarah Bernhardt took on the lead role and played Prince Hamlet. The actress, a pioneer in the interpretation of male roles, was one of the only ones to play both Hamlet and Ophelia.
Beyond the kingdom of Denmark and so many other dynasties that still hover like ghosts, subjects continue to seize the political power to decide over their own bodies, their performance and their identity. Monarchical words are invoked only to empty them of any connotation of manufacturing bodies and exploiting peoples. They take artistic and cultural productions that are the fruit of human history and turn them into poetic weapons and objects of struggle, pleasure and contemplation. The cock crows and the dawn announces a new stage under construction. A stage where all bodies play. This book is the morphological result of a dysmorphic monarchy that has reproduced itself: Queens, Kings & Queers. Bodies that move between representations and use art, acting and performance to question the stylisation of the everyday performative act itself. The drag movements ironise social hierarchy and show that gender is not something to be worn, it is not a consumer product, but a stage for struggle and poetry. A counterculture that doesn’t give in to pressure and that is constantly assembled and disassembled.
Assembly:
/əˈsɛmblɪ/
noun
1. Act of assembling.
2. Process of joining or assembling pieces of machinery, equipment or devices.
3. [cinema] activity that consists of making sequences with a selection of filmed scenes, to result in a film.
In drag, unlike an industrial process, you don’t get assembled: you assemble. You stop being passive and become the main and fundamental agent in the assembling process – of yourself and of what you represent. You choose the parts, equipment and devices that fit. Hide eyebrows and outline moustaches. Gluing hair. Adding hair, curling hair, cutting hair, straightening hair. Brightening cheeks, drawing jaws. Wear baggy trousers, tight dresses, earrings, bracelets. While drag queens, kings & queers dress up, Inês also assembles herself as an artist. Through choices that go beyond framing, speed, colour and aesthetics, the book is also assembled by its own machine of ideas, principles, visions, conceptions and concepts. The cameras glide between spaces and Inês plays against her own black box. Without a set speed, in an uncertain instant, with undefined colours, without curtains: the capture is uninterrupted, the book infinite. Time is different here.
It is through the slippery atmosphere of an almost prophetic dream that Inês places us inside the Queens‘ performances. Points of light from floral curtains transport the spectator through tunnels of memories dug by the hand that leafs through the book. You have to place yourself as a body for this object to work. The sometimes lurid images are fixed by light, contrast, texture and colour. The camera moves in detail and dances with these almost universal bodies. Hands, arms, breasts, legs, belly, skin, flesh. A biological thing that unfolds in a social context. The body is political. So can a book. In her rawest photographs, Inês gives these bodies names and abandons digital to present us with faces. It is through these images that we come into contact with what represents a large part of the work of drag queens: the freshly drawn eyebrows, the long eyelashes, the large eyes and the very well-defined mouth to be lent to the voices that will be dubbed. In the lip sync performance, the dance of the lips unfolds in an imitation of the gender structure that “reveals gender itself as an imitation”.
In Kings & Queers, monarchical dysphoria takes on a new poetry. The king is linked to the queer, a word whose very ontology is a refusal to be described, explained or categorised. A word embodied by the renunciation of its own description. The throne is usurped. Feet on the ground take the earth for themselves. Regicide bodies. Firm, solid photographs. The mystery takes on more marked tones and is realised through decisive chiaroscuros. There is a demarcation between what is seen and what looks at us. Inês takes an almost documentary discourse into her own hands and uses the tones that are at the origin of photographic making. Black and white occupy a solid place within photography because it separates this object from the concept of reality. Within the monochrome, Inês places all the colours, thus challenging the normality of reality, inverting the logic of cataloguing bodies as documents and abandoning the assumptions of the photographic genre. The strangeness and displacement of reality appear as metaphors for an almost palpable nature. The photographs grow, bleed, drip and overflow through the book itself.
What Inês puts together is a social document. An analysis of an artistic and poetic discourse that above all does the work of thinking about politics in art. Photography here is linked to its own ontology, it carries a content that has long been latent, details of a hidden reality, segregated in countercultural environments, which are now revealed. Dissident images, of a slippery nature, slide from the friction caused by the dualities imposed by the social and economic system. In life, in the show, in the cultural performance, one is a body in the world. Bodies that can emigrate and immigrate: from city, country, continent, gender or group. Bodies that can construct new realities or destabilise old truths. And what these bodies carry with them is always a sum of everything that has gone before. Without ceasing to be one thing to become another. One is everything. At the same time, all the time. As Paul B. Preciado says: “I prefer my new condition of monster to that of man or woman, because this condition is like a foot stepping into the void, pointing the way to another world”. There’s no way to be certain about this path, but it is possible to move towards a more monstrous space. A world-stage where everyone can act, perform, dub, sing, dance and create their own form of expression. That’s why this object. That’s why this book. All together, in one place. A circular device that requires handling beyond leafing through it. A desire to discover, interpret, assemble and disassemble. It is itself a living body, a reconstruction, a sum, a monster.
Este é um livro-palco. A estreia de uma narrativa sobre corpos que sublevam-se. Subversão de um sistema hegemônico de classificação identitária e da própria linguagem. Tomam-se palavras monárquicas para esvaziá-las de seus significados coloniais e inflá-las com discursos poéticos num sopro de renovação. A imagem fotográfica liga-se à sua própria ontologia: de carregar um conteúdo que há muito esteve latente, detalhes de uma realidade oculta, segregados em ambientes de contracultura – e revelá-los. O zoom óptico faz nascer uma monarquia dismórfica: Queens, Kings & Queers. Corpos que transitam entre representações e se utilizam da arte, da atuação e da performance para questionar a estilização do próprio ato performativo cotidiano. Este livro é um objeto circular que não se esgota. Um aparelho manual, imagético e social, que se monta ao aliar o poder de miniaturização e democratização da fotografia à potência do movimento drag, que ao ironizar a hierarquia social mostram que gênero não é algo que se usa, não é produto de consumo, mas espaço de luta e poesia. Queens, Kings & Queers se encaram em palcos plurais. Se complementam em suas próprias dissidências estéticas, formais e discursivas. E carregam consigo novas perguntas para infinitas respostas. Entre real e realeza, o que impera é a ânsia de poder tornar-se aquilo que se é.