Trabalho em constante desenvolvimento com a aquisição de novas imagens fotográficas, ou frases literárias ,em que o espelho é um personagem.













Os espelhos imitam um belo lago cuja tranquilidade parece atrair e fixar o sono; As vantagens desses espelhos, que têm qualquer coisa de prodigioso, mereciam sob muitos aspectos, os favores que obtiveram da moda. Abrir as paredes para aumentar as divisões; devolver generosamente os raios da luz que recebem, seja a do dia, seja a dos candelabros – como é que o homem, inimigo nato das trevas e de tudo o que pode ocasionar tristeza, poderia não ter gostado de uma decoração que o alegra iluminando e que, enganando os seus olhos, não o engana nada no real prazer que dela recebe?; O homem que todos os dias se confronta com a natureza não se interessa por reflexos impalpáveis, nem está muito ansioso, por encontrar o seu rosto marcado, tisnado, gasto pelo trabalho; Se olharmos para um vida sem os espelhos, só olhamos para metade; O espelho tem o poder de aumentar a acuidade ocular e de irradiar luz, fonte de toda a beleza; A uma distância incerta vemos dentro de um espelho, ou melhor, a imagem parece surgir por trás do ecrã material, de forma que aquele que se olha pode perguntar-se se está a ver a superfície em si ou através dela; Mas a humanidade não é produzida como um efeito pelas nossas articulações, pela implantação dos nossos olhos (e ainda menos pela existência dos espelhos, os quais, no entanto, são os únicos a tornar o nosso corpo inteiro visível para nós). O espelho aparece porque eu sou vidente-visível, porque há uma reflexividade do sensível, que ele traduz e redobra. Através dele, o meu exterior completa-se, tudo o que eu tenho de mais secreto passa nesta face, neste ser plano e fechado, de que já o meu reflexo na água me fazia suspeitar. O fantasma do espelho arrasta para fora minha carne, e dum mesmo fôlego, todo o invisível do meu corpo pode investir os outros corpos que vejo. O homem é espelho para o homem. Quanto ao espelho, ele é o instrumento de uma magia universal que transforma as coisas em espetáculos, os espetáculos em coisas, eu em outrem e outrem em mim. Os pintores sonharam frequentemente a partir dos espelhos porque neste “artefato mecânico”, como no da perspectiva, reconheciam a metamorfose do vidente e do visível, que é a definição da nossa carne e da vocação deles. As pessoas não deviam deixar espelhos pendurados pelos cômodos, assim como não devem deixar à vista seus talões de cheque ou cartas em que confessam algum crime hediondo. Das profundezas do sofá da sala de estar podia-se ver refletida no espelho italiano não apenas a mesa com tampo de mármore ali em frente, mas uma nesga do jardim mais além. De fora, no entanto, o espelho refletia a mesa do vestíbulo, os girassóis, o trecho do jardim com tamanha exatidão e fixidez que eles pareciam estar ali em sua realidade inescapável. Era um estranho contraste: cá toda a alternância, lá toda a quietude. No espelho as coisas haviam parado de suspirar e quedavam imóveis no transe da imortalidade. Depois, foi estranho ver como foram reunidas e arrumadas e compostas e se tornaram parte do quadro e assumiram a imobilidade e a imortalidade que o espelho conferia. Era forçoso imaginar que… aqui estava ela no espelho. Foi um enorme susto. Ela veio, demorando-se e detendo-se, aqui endireitando uma rosa, ali levando um cravo até o nariz, sem nunca parar; e durante todo esse tempo ela assumia no espelho um tamanho cada vez maior, tornando-se cada vez mais aquela pessoa em cuja mente se tentava penetrar. Logo o espelho começou a derramar sobre ela uma luz que pareceu fixá-la; que parecia uma espécie de ácido a carcomer o que era dispensável e superficial, poupando apenas o que era verdadeiro. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis da física não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha idéia do que seja na verdade — um espelho? O espelho, são muitos, captando-lhe as feições; todos refletem-lhe o rosto, e o senhor crê-se com aspecto próprio e praticamente imudado, do qual lhe dão imagem fiel. Mas — que espelho? Resta-lhe argumento: qualquer pessoa pode, a um tempo, ver o rosto de outra e sua reflexão no espelho. Sim, são para se ter medo, os espelhos. Sou do interior, o senhor também; na nossa terra, diz-se que nunca se deve olhar em espelho às horas mortas da noite, estando-se sozinho. Porque, neles, às vezes, em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão. O espelho inspirava receio supersticioso aos primitivos, aqueles povos com a idéia de que o reflexo de uma pessoa fosse a alma. Vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e velocidade? Dois espelhos – um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício – faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era – logo descobri… era eu, mesmo! Desde aí, comecei a procurar-me – ao eu por detrás de mim – à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio. Pouco a pouco, no campo-de-vista do espelho, minha figura reproduzia-se-me lacunar, com atenuadas, quase apagadas de todo, aquelas partes excrescentes. Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo liso, às vácuos, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era – o transparente contemplador?… Tirei-me. Aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona. E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um… desalmado/ Então, o que se me fingia de um suposto eu, não era mais que, sobre a persistência do animal, um pouco de herança, de soltos instintos, energia passional estranha, um entrecruzar-se de influências, e tudo o mais que na impermanência se indefine? Diziam-me isso os raios luminosos e a face vazia do espelho – com rigorosa infidelidade. Mesmo que tudo fosse verdade, não seria mais que reles obsessão auto-sugestiva, e o despropósito de pretender que psiquismo ou alma se retratassem em espelho… Olhou-se maquinalmente ao espelho que encimava a pia imunda e rachada, cheia de cabelos, o que tanto combinava com sua vida. Pareceu-lhe que o espelho baço e escurecido não refletia imagem alguma. Sumira por acaso a sua existência física? Arrumou, como pedido de favor, um pouco de café solúvel com a dona dos quartos, e, ainda como favor, pediu-lhe água fervendo, tomou tudo se lambendo e diante do espelho para nada perder de si mesma. Encontrar-se consigo própria era um bem que ela até então não conhecia. Depois de pintada ficou olhando no espelho a figura que por sua vez a olhava espantada. Antes do aparecimento do espelho a pessoa não conhecia o próprio rosto senão refletido nas águas de um lago; Mas o que é um espelho? Não existe a palavra espelho, só existem espelhos, pois um único é uma inifnidade de espelhos. Em algum lugar do mundo deve haver uma mina de espelhos? Espelho não é coisa criada e sim nascida. Não são precisos muitos para se ter a mina faiscante e sonambúlica: bastam dois, e um reflete o reflexo do que o outro refletiu; num tremor que se transmite em mensagem telegráfica intensa e muda, insistente, liquidez em que se pode mergulhar a mão fascinada e retirá-la escorrendo de reflexos dessa dura água que é o espelho. Como a bola de cristal dos videntes, ele me arrasta para o vazio que para o vidente é o seu campo de meditação, e em mim o campo de silêncios e silêncios. E mal posso falar, de tanto silêncio desdobrado em outros; Espelho? Esse vazio cristalizado que dentro de si espaço para se ir para sempre em frente sem parar: pois espelho é o espaço mais fundo que existe. E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. Ver-se a si mesmo é extraordinário. Como um gato de dorso arrepiado, arrepio-me diante de mim. Do deserto também voltaria vazia, iluminada e translúcida, e com o mesmo silêncio vibrante de um espelho. A sua forma não importa: nenhuma forma consegue circunscrevê-lo e alterá-lo. Espelho é luz. Um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo. Tire-se a sua moldura ou a linha de seu recortado, e ele cresce assim como água se derrama. O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem – esse alguém então percebeu o seu mistério de coisa. Ao pintá-lo precisei de minha própria delicadeza para não atravessá-lo com minha imagem, pois espelho em que eu me veja já sou eu, só espelho vazio é que é o espelho vivo. Só uma pessoa muito delicada pode entrar no quarto vazio onde há um espelho vazio, e com tal leveza, com ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prêmio, essa pessoa delicada terá então penetrado num dos segredos invioláveis das coisas: viu o espelho propriamente dito. E descobriu os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um outro bloco de gelo. Espelho é frio e gelo. Mas há a sucessão de escuridões dentro dele – perceber isto é instante muito raro – e é preciso ficar à espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar e surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Com dores de preto e branco recapturar na tela sua luminosidade trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturar também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água. Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surprendido consigo própio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria alegria de ser. Alegria de encontar na figura exterior os ecos da figura interna: ah então é verdade que eu não me imaginei, eu existo. É preciso, pois, fingir não saber quem se refletirá no fundo do espelho e interrogar esse reflexo ao nível de sua existência. O grande espelho calmo, no fundo do qual as coisas se mirariam e remeteriam umas às outras suas imagens, é, na realidade, todo buliçoso de palavras. Os reflexos mudos são duplicados por palavras que os indicam. Símbolo do luxo aristocrático; O instrumento das aparências; Traço de união entre natura e cultura; Cria uma nova geografia do corpo; Amplia o conhecimento da própria anatomia; Guarda sua imagem pessoal; Objeto que se leva para a prisão; Altera a percepção dos espaços; Perturba os equilíbrios; Místico; Coloca o corpo em um espaço objetivo; Formador da função do eu; Recebe o espetáculo de si; Alarga o espaço mental; Auxilia a identificação e a auto-representação; Revelador de perturbações psíquicas; Acompanha a procura da identidade; Mágico; Miraculoso; Criador; Permite o encontro consigo próprio; Ajuda a se perceber como o outro do outro; Permite ver-se e ser visto; Quem olha também é olhado; Construímos nele a nossa própria imagem; Assistimos nossa própria destruição; Mostra o passar do tempo; Já foi associado ao diabo; Garante que se está ali; Confirma a unidade do sujeito contra as ameaças de mutilação e desmembramento; Mostra a semelhança entre o homem e o seu criador; Sublinha a estrutura obscura de qualquer auto-retrato; Ambíguo; Sóbrio; Sombrio; Magnífico; Carregados para o túmulo; Redondos; Ovais; Quadrados; Retangulares; Hexagonais; Com molduras; Sem molduras De bronze; De metal; De vidro; Revestido com ouro; Obsidiana (rocha preta vulcânica); Almandina preta; Esmeralda; Objeto decorativo; Aprisiona a luz do dia; Inverte a perspectiva; Amuletos; Pode oferecer uma imagem distorcida; Produz efeitos ópticos; Emanava graças; Arte alquímica; Precioso; Caro; Uma invenção divinamente bela, pura e incorruptível; Prolongam os efeitos ópticos; Engana; Lugar da admiração; Sedutor; Levam as pessoas à ruína; São janelas falsas em frente as verdadeiras; Gerador da dúvida; Iluminam as divisões escuras; Simulam as molduras das janelas; Lembram joias preciosas; Refletem a paisagem; Desempenham a função de quadros; Aliança entre arte e natureza; É o reino dos signos; É onde a riqueza se ostenta e multiplica; Lisos; Duplicam as mercadorias nas lojas; Suscitam o desejo; Perfeitos; Reflete o interior no exterior; Reflete o exterior no interior; Mostra o invisível; Questiona as noções de imagem e semelhança; Reproduz o original de forma exata e imperfeita; Coloca o sujeito ali e do outro lado; Esconde tanto quanto mostra; Manifesta a pureza diáfana e epifânica do modelo divino; Confunde; Captura a alma; Ofusca; Reduplica; Símbolo colonial;